
“Quando entendemos o mecanismo, o diagnóstico deixa de ser identidade e passa a ser estratégia.”
Uma conversa franca sobre rótulos, sintomas e o que realmente acontece no cérebro
▣ Djinani Lima: Doutor Rafael, o senhor costuma dizer que muitos pacientes estão sendo tratados… mas não estão sendo realmente compreendidos. Isso não é uma afirmação forte demais?
▣ Dr. Rafael: É forte — mas é real. A maioria dos diagnósticos psiquiátricos ainda é feita com base em listas de sintomas, seguindo manuais como o DSM-5-TR* e a CID-11*. Funciona assim: Se você tem “x” sintomas por “y” tempo, recebe um nome. Porém, o cérebro humano não leu nenhum manual.
▣ Djinani:Então o senhor está dizendo que os diagnósticos estão errados?
▣ Dr. Rafael: Não necessariamente errados – mas, frequentemente, superficiais. Dois pacientes podem receber o mesmo diagnóstico de TDAH. Um sofre principalmente com desatenção; outro sofre com explosões emocionais e impulsividade grave. Apesar de terem cérebros funcionando de maneiras diferentes, ambos recebem rótulos idênticos. E, diante disso, tratar os dois da mesma forma é como prescrever os mesmos óculos para graus diferentes.
O famoso problema das “caixas”. O modelo tradicional é categorial: “você está dentro ou fora da caixa”. Quando, na verdade, saúde mental não é caixa, e sim espectro. É intensidade. É desequilíbrio de sistemas.

O National Institute of Mental Health propôs algo revolucionário: o modelo RDoC. Nele, não se pergunta: “Qual é o transtorno?” Pergunta-se: “Qual sistema do cérebro está desregulado?” E isso muda tudo.
▣ Djinani: Como assim “sistema”?
▣ Dr. Rafael: Sistema de recompensa, sistema de controle de impulsos, sistema de regulação emocional, sistema de ameaça (ansiedade) e sistema de atenção. Todos nós temos esses sistemas. O que diferencia quem sofre é o grau de desorganização.
Vamos usar um exemplo: alguém recebe diagnóstico de ansiedade por anos, mas, na verdade, tem disfunção atencional crônica. Ou seja, estamos tratando a fumaça — não o incêndio.
▣ Djinani:E isso afeta tanto assim o resultado, doutor?
▣ Dr. Rafael: Afeta drasticamente. Quando tratamos o rótulo, o paciente melhora apenas parcialmente.Jáquando tratamos o sistema desregulado, a melhora é profunda.
Em geral,muitos pacientes são rotulados como: ansiosos, depressivos, “instáveis”ou“difíceis”. O fato é que possuem uma arquitetura cerebral específica que nunca foi compreendida dimensionalmente.
Resultado;eles acumulam diagnósticos e medicamentos,sem que alguém tenha explicado como o cérebro deles realmente funciona.
▣ Djinani: Como o senhor pontuaria essas atitudes?
▣ Dr. Rafael: Com umaverdade desconfortável: grande parte da psiquiatria ainda é sintomatológica, baseada em “checklists”.
▣ Djinani: Cabem “checklists”nos casos de sofrimento, doutor?
▣ Dr. Rafael: De jeito nenhum. O modelo dimensional não substitui o diagnóstico formal — ele o aprofunda.Ele faz perguntas como: “O que veio primeiro?”“O que é causa?”“O que é consequência?”“Qual eixo está primariamente alterado?”E essa hierarquia altera a estratégia.
▣ Djinani: Então o que muda para o paciente na prática?
▣ Dr. Rafael: Ele deixa de ouvir: “você tem três transtornos.” E começa a entender que seu cérebro tem uma desregulação principal em algum lugar — e as outras coisas são efeitos disso.
Isso reduz a polifarmácia desnecessária, tratamentos intermináveis e a sensação de fracasso terapêutico. E aumenta a clareza, o direcionamento e o resultado real.
Diagnóstico não é destino. Quando usamos apenas o modelo categorial, o diagnóstico vira identidade. Quando aplicamos o modelo dimensional**, o diagnóstico vira estratégia.
Isso é profundamente libertador, porque não estamos tratando um “transtorno”; estamos reorganizando sistemas. E sistemas podem ser modulados.
▣ Djinani: Para concluir, se tivesse que resumir em uma frase?
▣ Dr. Rafael: Eu diria que o diagnóstico é o nome da caixa. A cura real começa quando entendemos o mecanismo.
Notas: * O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição Revisada) e a CID-11(Classificação Internacional de Doenças, 11ª Revisão) são os principais guias mundiais para diagnóstico de transtornos mentais, utilizados para padronizar definições, sintomas e tratamentos. Enquanto o DSM-5-TR (da APA) foca exclusivamente na saúde mental, a CID-11 (da OMS) é mais ampla, oferecendo maior versatilidade clínica. Ela abrange todas as condições de saúde, sendo a referência legal/administrativa no Brasil.
** Modelo dimensional: Uma forma de olhar o cérebro por intensidade e funcionamento — não apenas por rótulos.
